A premiação do IgNobel 2014

A cada ano, cerca de 1 milhão de artigos científicos é publicado em periódicos especializados em todo mundo, número que vem crescendo continuamente. Uns poucos entram para a História por suas descobertas ou por mudar paradigmas dentro dos respectivos campos. A grande maioria representa mais um tijolo na construção do conhecimento humano. Alguns, no entanto, conquistam seu espaço na literatura e nas manchetes por motivos menos nobres.

Essas pesquisas se sobressaem por serem estranhas, inusitadas, engraçadas ou ridículas, muitas vezes tendo como objeto de estudo temas atuais, obras culturais e o imaginário popular, ou mesmo recorrendo a estratégias de marketing, na luta para se destacar. Para estas, a glória é receber um prêmio Ig Nobel, que terá os vencedores de sua 24ª edição anunciados esta quinta-feira, numa cerimônia na Universidade de Harvard, nos EUA. Entre os ganhadores já houve estudos sobre a física do movimento de penteados de rabo de cavalo, registros de atividade cerebral em salmões mortos e passeios de montanha-russa antiasma.

Criador do prêmio e organizador do evento, o matemático Marc Abrahams, ex-editor da respeitada revista “Science”, destaca que o Ig Nobel não tem a intenção de ridicularizar as pesquisas, mas ajudar na divulgação da ciência e combater o “analfabetismo científico” pelo caminho do humor. Tanto que foram raras as ocasiões, como conta, em que a “distinção” foi recusada (quando isso acontece, na maior parte dos casos outros vencedores são escolhidos, e o estudo originalmente eleito não é divulgado). Muitos ganhadores fazem questão de participar da bem-humorada cerimônia, na qual recebem o prêmio — um diploma e um troféu — das mãos de laureados com o verdadeiro Nobel.

— Os estudos que coleciono costumam ser inusitados ou engraçados, mas os mais interessantes são os que fazem as pessoas rirem e pensarem — diz. — Como têm algo de inesperado, à primeira vista é difícil decidir se esses estudos são importantes ou completamente triviais, se são bons ou ruins. Até porque, em quase qualquer novo campo de estudo, as pesquisas iniciais podem parecer absurdas.

É o caso, por exemplo, do físico Andre Geim. Em 2000, ele e o colega Michael Berry ganharam o Ig Nobel da área por uma série de experiências com levitação magnética que tiveram entre suas cobaias um sapo. Dez anos depois, Geim acabou também agraciado com o verdadeiro Nobel de Física, junto com Konstantin Novoselov, por ter isolado e identificado o grafeno, material com potencial de revolucionar diversas áreas constituído por uma camada de carbono com apenas um átomo de espessura. Em mais uma amostra de seu estilo de “pensar fora da caixa”, Geim não usou caros equipamentos de última geração para chegar ao grafeno, mas uma simples fita adesiva, arrancando camadas cada vez mais finas de uma amostra de grafite como o de lápis comuns.

Há também episódios em que marketing e ciência se unem para o bem. Um exemplo disso foi dado às vésperas da temporada de furacões de 2011 pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. A fim de chamar a atenção para a importância da preparação individual em situações de catástrofe, o CDC lançou um “guia de sobrevivência para o apocalipse zumbi”. O sucesso foi tamanho que, em um dia, o número de seguidores da instituição em uma rede social multiplicou-se por cem, atingindo 1,2 milhão de pessoas.

DERRUBANDO MITOS

Abrahams conta que muitos dos estudos analisados para o Ig Nobel — ele e o comitê que escolhem os ganhadores recebem em média 9 mil indicações por ano para o prêmio de colaboradores ao redor do mundo — podem ser vistos como ferramentas de marketing, buscando confirmar ou negar obviedades. Mas também, nestes casos, alguns são necessários e importantes para derrubar ideias preconcebidas ou alegações que colocam em risco a própria sociedade. Ele lembra que até não muito tempo atrás havia políticos e empresas nos EUA que argumentavam que despejar resíduos com substâncias químicas tóxicas em rios não prejudicava o meio ambiente ou a saúde da população. Ou que fumar cigarro não fazia mal.

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— Às vezes, pessoas em posições de influência, políticos ou empresários insistem em que algo não é do jeito que realmente é — destaca. — Nada muda até que gente suficiente perceba que eles estão afirmando sem sentido. Assim, são necessários estudos sérios para recolher e apresentar provas bastantes. E estamos vendo isso acontecer de novo agora com a exploração do gás de xisto (uma “revolução energética”, para seus exploradores, ou uma forma de conseguir energia altamente prejudicial ao ambiente, para os detratores).

Algumas pesquisas parecem ter como objetivo corroborar opiniões ou satisfazer o ego de seus autores. Elas se aproveitam do desconhecimento dos leigos sobre a grande diferença entre correlação e causalidade e põem em risco a confiança da sociedade na ciência. Esses estudos, diz Abrahams, não têm lugar no Ig Nobel, e a estratégia para identificá-los é prestar atenção às questões que procuram responder:

— É possível correlacionar uma coisa com praticamente qualquer outra, mesmo que estejam muito distantes. É preciso parar e pensar se a pergunta é válida e se estudo é sólido. Se não, não passa de pura perda de tempo e recursos.
(Artigo de autoria de César Baima)

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