Poesia

sobre a trilha vão dar outros trilhos


Dias de chumbo, esses em que vivemos. Céus de nuvens grávidas.
Os homens voam mas já temem que as asas de artifício
lhes transtornem os dias, lhes dobrem os meses, lhes encurtem os anos…
Com medo do céu, resgata-se o prazer de viajar pelas estradas.
O Brasil é serpenteado por elas; muitas em estado de desolação
completa; mas aonde elas vão, elas nos levam…

Houve um tempo em que as estradas eram caminhos de ferro
e por sobre os trilhos navegavam os vapores das marias
inundando de fumagem e fuligem os que embarcavam ou não.

Hoje, os cavalos de ferro já não correm pelos interiores,
comendo chão, devorando túneis, embocando nos cortes;
e nem se fazem mais os caminhos como antigamente.

No passado, os ares eram destinados às aves que voam,
os passarinhos. Ninhos de cobra, esses monstros voadores
hoje chocam ovos de destruição e que alimentam a Morte.

E o homem que inventou Santos Dumont que inventou o avião
que inventou de viajar por esse inventivo país
até chegar aos dias de hoje, se sente desolado, inquieto,

quando a absurda cor da noite envolve com seu manto
uma dessas fortalezas voadoras que, num átimo de tempo,
choca-se, despedindo-se da pista que deu “end” em Congonhas.

Eu, selvagem de primeira viagem, botocudo de pai e mãe,
sustento a palavra, bato o pe, engulo o choro e decidido sou:
só viajo agora pelos cipós das matas… e olhe lá quando e como!…

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